
O constante aumento da temperatura da superfície do Oceano Atlântico tem modificado o regime de chuvas no Brasil, contribuindo para a ocorrência de eventos climáticos extremos como as fortes chuvas que atingiram o litoral paulista e regiões de Minas Gerais nos últimos dias. Segundo o meteorologista Marcelo Seluchi, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), o aquecimento das águas do Atlântico faz parte de uma tendência global que eleva a taxa de evaporação, lançando grandes volumes de vapor de água na atmosfera.
Círculo vicioso de umidade e calor
“E aí temos um problema duplo. Porque, devido ao aquecimento global, a atmosfera também está mais quente, e acaba por transformar em chuvas extremas toda a umidade que os ventos, e principalmente as frentes frias, trazem do oceano”, explica Seluchi. Ele ressalta que, em alguns pontos próximos à costa brasileira, a temperatura média das águas oceânicas está até 3°C acima da média histórica para o período.
Embora esse aumento de curto prazo possa ter fatores como a força das correntes marítimas, o ponto crítico, segundo o meteorologista, é a extensão da área onde essa elevação de temperatura ocorre. Quanto maior a mancha de calor oceânico, mais umidade é lançada na atmosfera, aumentando as chances de chuvas mais volumosas em combinação com uma atmosfera mais úmida.
Tendência global de aquecimento dos oceanos
Dados de monitoramento, incluindo registros de satélite da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (Noaa), apontam que a taxa de aquecimento dos oceanos acelerou nas últimas décadas. Um estudo publicado na revista Advances in Atmospheric Sciences indica que o aquecimento global dos oceanos atingiu um novo recorde em 2025 devido ao aumento das concentrações de gases de efeito estufa.
A doutora em meteorologia Ilana Wainer, do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IOUSP), reforça que diversas fontes sérias indicam o aquecimento do planeta e dos oceanos desde 1850, com aceleração a partir da década de 1980. Ela alerta que isso pode gerar ondas de calor marinho localizadas e temporárias, que, em conjunto com outros fatores, podem contribuir para eventos climáticos extremos.
Ondas de calor marinho e eventos extremos
“Mas as ondas de calor marinho [localizadas] ainda são um assunto relativamente novo. Ainda estamos entendendo como elas surgem, com que frequência e por quanto tempo duram. Ainda assim, é possível afirmar com segurança que, isoladamente, elas não causam as chuvas intensas, embora, dependendo das condições, possam torná-las mais severas”, disse Ilana.
Distribuição irregular das chuvas
Ao mesmo tempo em que algumas regiões enfrentam chuvas torrenciais, outras sofrem com a estiagem e o risco de falta de água. Segundo Marcelo Seluchi, isso ocorre devido à distribuição irregular das chuvas, em parte explicada pela degradação ambiental. A umidade vem não só dos oceanos, mas também da Amazônia e de regiões desmatadas, onde os “rios voadores” são afetados.
“Quando suprimos a vegetação nativa por áreas de pastagem, esse solo evapora menos. E disso decorre essa enorme irregularidade [na distribuição das chuvas]. Porque, dependendo da direção de onde os ventos estão soprando, podemos estar com uma fonte de umidade degradada, e aí se estabelece um círculo vicioso no qual chove pouco porque o solo está seco e o solo está seco porque chove pouco”, concluiu Seluchi.
Com informações da Agência Brasil


