
A Polícia Civil de Santa Catarina prendeu preventivamente dois homens acusados de abusar sexualmente de pessoas surdas ao longo de anos em Jaraguá do Sul, no Norte catarinense.
Paulo Sérgio Praxedes do Monte Araújo, de 44 anos, presidente da Associação de Surdos de Jaraguá do Sul e professor de Libras em escolas municipais e estaduais, e Carlos Francisco Priprá, de 42 anos, seu marido, foram detidos na última quinta-feira (30) no bairro Czerniewicz, durante uma visita hospitalar.
Os dois foram encaminhados ao sistema prisional e aguardam audiência de custódia.
A prisão preventiva foi determinada pela Justiça após investigação conduzida pela Delegacia da Mulher, da Criança e do Adolescente de Jaraguá do Sul, sob comando do delegado Augusto Brandão. A apuração teve início em 2025, a partir de requisição do Ministério Público de Santa Catarina.
A confiança como armadilha
Conforme a investigação, os dois homens se valiam da posição de liderança e ensino dentro da comunidade surda para selecionar e abusar de vítimas. Paulo atuava como professor de Libras e coordenador de atividades pastorais voltadas a pessoas surdas. Carlos, seu companheiro, frequentava os mesmos ambientes e eventos.
As vítimas, todas surdas, procuravam a associação ou as aulas de Libras em busca de aprendizado, orientação e acolhimento. Segundo a Polícia Civil, os suspeitos utilizavam ameaças, chantagem emocional, isolamento e, em alguns casos, oferta de dinheiro para silenciar as vítimas e evitar denúncias.
A investigação aponta que os abusos foram praticados em escolas, retiros religiosos, no veículo do casal e dentro da própria residência dos suspeitos. A dinâmica se repetia: um dos dois se aproximava da vítima em ambiente de confiança, isolava a pessoa e cometia o abuso. Em ao menos uma situação apurada, um dos investigados trancou a porta do cômodo para impedir que a vítima saísse.
Os relatos das vítimas
Até o momento, ao menos cinco vítimas foram identificadas, todas surdas. Quatro delas já foram ouvidas pela Polícia Civil com o auxílio de intérpretes de Libras.
Os relatos revelam um padrão de abusos que remonta a pelo menos 2008. Uma das vítimas relatou que foi abusada quando tinha 12 anos de idade, na época aluna de uma escola municipal onde Paulo atuava como professor. Conforme apurado, o professor teria constrangido a criança a atos sexuais dentro do banheiro da própria instituição de ensino, em mais de uma ocasião.
Outra vítima narrou abusos ocorridos durante um retiro da pastoral de surdos, quando tinha 15 anos. Segundo o relato, Carlos a levou a um quarto sob pretexto não identificado e praticou atos libidinosos. Na ocasião seguinte em que a vítima encontrou o casal, Paulo teria afirmado que sabia do ocorrido e manifestou interesse em presenciar a repetição dos atos.
Um terceiro denunciante descreveu abuso durante um deslocamento de carro em julho de 2014, quando Carlos teria assediado e constrangido a vítima, então com cerca de 20 anos, a atos sexuais enquanto dirigiam para o Aeroporto de Navegantes. Conforme a vítima, o assédio se tornou recorrente a partir desse episódio e persistiu em eventos da associação até o ano passado.
Há ainda relato de episódios em 2016, durante evento pastoral na cidade de Caçador, onde Paulo teria isolado vítimas em salas e banheiros para praticar abusos. Na mesma ocasião, Carlos teria assediado repetidamente outras pessoas surdas no alojamento, incluindo durante o sono.
Em todos os casos, as vítimas declararam que não denunciaram os fatos na época por não compreenderem, à época, a natureza criminosa das condutas, além de sentirem vergonha e medo. A barreira de comunicação imposta pela surdez agravava ainda mais a vulnerabilidade.
A posição de poder
Paulo Sérgio Praxedes era figura amplamente reconhecida na comunidade surda de Jaraguá do Sul. Como presidente da Associação de Surdos e professor de Libras, ocupava uma posição central de referência para famílias, alunos e membros da comunidade que dependiam da entidade para acesso à comunicação e inclusão social.
Ele também atuava como coordenador regional da pastoral de surdos da Igreja Católica, o que lhe dava acesso a jovens e adolescentes surdos em retiros e acampamentos em diversas cidades de Santa Catarina.
A confiança depositada pelas famílias no professor, conforme os relatos, era ampla. Mães permitiam que os filhos frequentassem a residência do casal, sem suspeitar do que ocorria.
A investigação
A apuração formal foi instaurada em 2025, após o Ministério Público de Santa Catarina requisitar a abertura de inquérito. Registros indicam, porém, que já havia denúncias anteriores desde ao menos 2016, incluindo boletim de ocorrência registrado na DPCAMI de Concórdia relatando conduta criminosa do casal contra um adolescente.
A Delegacia da Mulher, da Criança e do Adolescente de Jaraguá do Sul reuniu depoimentos, cruzou relatos e obteve na Justiça o mandado de prisão preventiva. A defesa dos investigados não havia se manifestado publicamente até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto.
Novas denúncias
A Polícia Civil informou que segue aberta a novas denúncias de vítimas que possam ter sido abusadas pelos investigados. Os relatos podem ser feitos diretamente na Delegacia da Mulher, da Criança e do Adolescente de Jaraguá do Sul, com garantia de sigilo e acompanhamento de intérprete de Libras.
Conforme a investigação, o número de vítimas pode ser maior do que as cinco identificadas até o momento, considerando a extensão temporal dos crimes e a posição de acesso privilegiado que os suspeitos mantinham.
Os presos aguardam audiência de custódia. O caso segue em investigação.


