
Brasil – Em meio à queda de popularidade nas pesquisas eleitorais mais recentes, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) colocou em xeque sua candidatura à presidência neste ano durante entrevista, nesta quarta-feira (8), a um portal de notícias. Embora sua eventual saída do pleito possa agradar agentes do mercado financeiro – que esperam uma guinada do Planalto à direita na expectativa por uma agenda econômica mais alinhada aos seus interesses -, as reações à declaração são limitadas.
Isso porque o mercado global opera nesta manhã guiado pela trégua de duas semanas entre Estados Unidos e Irã. O acordo selado ontem entre as duas potências nucleares reduz o risco geopolítico no momento, o que fez o barril de petróleo Brent (referência global) desabar mais de 17%, aos US$ 90, na mínima até aqui.
Esse movimento explica o cenário misto na bolsa brasileira: de um lado, a Petrobras e outras petroleiras desabam, acompanhando a commodity; de outro, bancos e empresas ligadas ao consumo doméstico sobem com a perspectiva de maior espaço para a queda da Selic neste ano – aposta refletida no mercado de futuros de juros.
Entrevista de Lula
Lula afirmou que a decisão oficial sobre concorrer as eleições neste ano só virá nas convenções partidárias (que acontecem entre julho e agosto), mas admitiu que “dificilmente deixará de ser candidato”.
E o mercado financeiro sabe disso. O tabuleiro político já é desenhado com Lula na corrida eleitoral deste ano – e, a esta altura, dificilmente haverá um sucessor do petista com tantas chances a ganhar o Planalto.
Os investidores já trabalham com o cenário de continuidade da atual política econômica desde o início do ano, especialmente depois que seu candidato preferido, Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), retirou-se da disputa com Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pela liderança da campanha de oposição a Lula.
Mais recentemente, as pesquisas eleitorais têm mostrado empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno, o que tem reduzido a probabilidade de reeleição do PT no Planalto – um cenário que incentivaria a tomada de risco local.
O mercado financeiro é especialmente avesso à política econômica de Lula, especialmente na ponta fiscal, a que atribui a escalada da dívida pública que pode desequilibrar a balança de riscos local. Por isso, um cenário em que o líder petista estaria fora da jogada tende a agradar esses grandes investidores.
Mas fato é que, embora limitada no momento, a volatilidade impressa pela narrativa política tende a aumentar à medida que a eleição se aproxima. Por ora, o curto prazo medido pelos riscos da guerra no Golfo Pérsico ainda fala mais alto.
Fim da escala 6×1 e minerais críticos
O presidente Lula reforçou durante a entrevista sua intenção de colocar fim à jornada de seis dias de trabalho por um de descanso, conhecida como escala 6×1. A pauta se tornou uma das principais bandeiras do governo federal nessa campanha eleitoral.
Lula ainda sinalizou na conversa com os apresentadores que a União terá controle rígido sobre minerais estratégicos (como o lítio e terras raras). É o contrário da política defendida pelo primogênito Bolsonaro hoje, que já declarou sua intenção de entregar essa exploração a empresas americanas.
A postura do petista sugere uma postura mais intervencionista do Estado em setores de mineração e energia. Para quem investe no setor, o sinal é de que grandes parcerias internacionais para exploração dessas terras dependerão diretamente do crivo de Brasília.
Apesar de sinalizações relevantes para o médio prazo, as falas de Lula hoje têm efeito limitado porque não trouxeram surpresas fiscais negativas imediatas.
Contudo, para o investidor que olha para o fim do ano, o recado é claro: a campanha eleitoral já começou e essa pautas serão munição política de ambos os lados, o que pode trazer instabilidade para as ações da indústria, do consumo e do varejo, a depender de como os embates políticos se desenrolarem.


