
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não tem planos de apoiar a alegação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de ser o líder legítimo do Brasil, mesmo tendo ajudado o candidato derrotado a chegar ao território americano após anos de apoio a ele e a seu pai. A informação foi repassada na quinta-feira (29) por uma autoridade norte-americana e por uma pessoa a par do assunto.
Trump afirmou que a eleição brasileira de domingo pareceu “manipulada”, mas disse que não ofereceu apoio a nenhum candidato. Ele também declarou que tem boa relação com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, reeleito por cerca de 3,5 pontos percentuais, contrariando as pesquisas.
As fontes, que falaram sob anonimato, afirmaram que Trump não pretende no momento apoiar as ambições políticas de Flávio, apesar de o governo ter permitido sua entrada no país. Elas ressalvaram que o presidente pode mudar de ideia. A postura do governo sugere que Trump pode estar relutante em criar uma nova crise nas relações com o Brasil, que oscilaram nos últimos meses.
Uma terceira autoridade norte-americana, também sob anonimato, disse que o capital político de Flávio diminuiu com o autoexílio. Muitos conservadores brasileiros que esperavam que ele liderasse a oposição criticaram a fuga.
A Casa Branca encaminhou um pedido de comentário ao Departamento de Estado, que não respondeu. O governo brasileiro e um representante de Flávio também não se manifestaram.
O pai de Flávio, o ex-presidente Jair Bolsonaro, está preso por tentativa de golpe para permanecer no poder após perder a reeleição em 2022.
Autoridades brasileiras, também sob anonimato, disseram à Reuters que a saída de Flávio ajuda Lula ao enfraquecer a oposição conservadora no Congresso.
A viagem do senador ocorreu depois que o ministro Alexandre de Moraes, do STF, ordenou a entrega de seu passaporte, atendendo a um pedido da Polícia Federal, que o investiga por suposto esquema de lavagem de dinheiro e evasão de divisas. O pedido da PF foi feito poucos minutos após a vitória de Lula, sequência que alguns conservadores apontaram como evidência de motivação política.
Apoiadores de Lula destacam que, dias antes da eleição, o irmão de Flávio, Eduardo, sugeriu publicamente que ele deixasse o Brasil caso perdesse. Eduardo, ex-deputado que vive nos EUA, foi condenado pelo STF em junho por tentar obter interferência do governo Trump no julgamento do pai.
Autoridades argentinas informaram que Flávio, a esposa e as duas filhas atravessaram uma ponte para o norte da Argentina às 22h50 de terça-feira e embarcaram em um avião fretado às 23h30. A família voou para Miami, via Equador.
Não está claro como o senador viajou de Brasília até a ponte, a 1.300 km de distância, nem como saiu do Brasil sem o conhecimento das autoridades alfandegárias. Durante a viagem, Flávio entrou em contato com várias autoridades norte-americanas sobre sua partida, segundo uma dessas autoridades.
Jason Miller, assessor de Trump próximo à família Bolsonaro, ajudou a organizar o voo a partir da Argentina, segundo a fonte, informação também revelada pelo The New York Times. Durante a viagem, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, recomendou a Trump que a entrada do senador fosse permitida, e o presidente aprovou, conforme a autoridade norte-americana.
Ao longo do voo de duas etapas, autoridades do Departamento de Estado discutiram com o Departamento de Segurança Interna a melhor via legal para a entrada de Flávio e da família. Por fim, os norte-americanos concederam “parole humanitária” na fronteira, status temporário dado em casos de questões humanitárias urgentes ou interesse público significativo, acrescentou a autoridade.
Em carta aberta publicada no X na quarta-feira (28), Flávio se autoproclamou “o presidente eleito”. Depois, apagou a versão e publicou outra, na qual se dizia o “líder” legítimo do Brasil.
A fuga de Flávio é o capítulo mais recente de um período turbulento na política brasileira e nas relações entre EUA e Brasil. Mesmo tendo criticado a condução da eleição brasileira, Trump evitou criticar Lula. “Gosto do Lula, me dou muito bem com ele”, disse o presidente americano a repórteres na segunda-feira. “Só acho que a eleição deixou uma péssima impressão.”



